Uma vida sem regras que ninguém jamais conhecerá
Sexy, Christine (nome fictício) sai enrolada feito um pião; seus seios à mostra eram erguidos pelo trabalho minucioso de apertar as cordas sobre sua pele branca, macia e suave. Excitava a platéia ver seus mamilos arroxeados crisparem-se; a brancura de sua pele sendo substituída pela vermelhidão nos pontos em que a corda apertava a circulação de seu sangue, era sinônimo de tesão para aquelas pessoas que vibravam com a dor de Christine. Era uma apresentação de uma técnica que veio do oriente, onde sexo e mortificação corporal se misturavam. O nome que davam àquilo eu nem me lembro mais. Porque pasmei ao ver tamanha bizarrice, e enquanto todos adoravam aquela garota enrolada nas cordas, eu era aquela corda. Eu podia sentir cada espasmo dos músculos no seu rosto, podia sentir aonde doía mais e tinha um motivo para estar ali: eu queria aquela garota.
Foi num desses acasos que as esquinas proporcionam que eu a conheci. A rua Augusta, antro paulistano das esquisitices e das pessoas diferentes – sexual, racial e socialmente – é o único lugar onde você encontra de tudo. Lá tem clubbers que vomitam e dormem em cima do vômito; tem mendigo que ingere qualquer droga que você botar na frente dele; tem menina burguesa que vai de salto alto pra curtir uma das baladinhas cools que só existem por lá e depois elas trocam uns beijinhos com outras menininhas igualmente ignóbeis, degustam umas balas e acabam na cama do primeiro babaca que aparece; tem hippies imundos vendendo livros, missangas e camisetas e se pudessem até a mãe deles; tem góticos tenebrosos que fazem um happy hour e tomam tequila antes de bater ponto em algum cemitério pra cortar os pulsos; tem uma multidão de gays e lésbicas que exercem toda a sua homossexualidade sem pudores, porque é somente ali que ninguém nota que eles têm pudores; tem skinheads, mamelucos, sambistas, EMOs e a maior variedade de bares e drogas por metro quadrado de São Paulo. A Augusta era a casa da Christine.
Eu andava pela Augusta durante um dia qualquer, no momento em que seu ápice multicultural ainda não acontecia (era segunda-feira, 14h45min) e me interessei por uns desenhos tribais que compunham a fachada de uma loja. Depois de perceber que era uma clínica de perfuração corporal (piercing) entrei na loja por curiosidade. Era um indício de que eu queria ver algo diferente.
Não é que eu não seja íntimo da arte do body piercing. Até ostento os meus buracos pelo corpo. Três, no total. Mas sempre admirei de longe, sem saber que por trás daquele panorama estético havia uma estilização da vida. Eu nunca imaginei a profundidade deste mundo, onde a arte rupestre e indígena são inspirações e ponto de partida para as pessoas que perfuram os corpos ocidentais.
Por sorte eu me encontrava na loja do maior piercer do Brasil, André Meyer, um dos precursores desta moda por aqui, conhecedor de arte como poucos e obcecado pelos povos que tradicionalmente perfuram-se os corpos por motivos muito maiores do que parecer atraente. É claro que eu não saí de lá sem a minha jóia - um alargador de lóbulo com seis milímetros de espessura, desenhado exclusivamente por Meyer e que fora extraído do chifre de um búfalo – para depois voltar mais algumas vezes.
Mas apesar de todo o ambiente propício para eu saciar a minha ávida sagacidade por conhecer o mundo que André conhecia – ele viajara para Índia, Tailândia, Nepal; dá aulas de ioga e cursos profissionalizantes para novos piercers – me chamou a atenção naquele dia alguém que entrara na loja junto comigo. Era Christine. Ela, num raro momento de ausência de embriaguez, conversou durante uma longa hora com André e eu, revelando-se uma misteriosa criatura, marcada pelo signo de ser única neste planeta. A garota, que aparentava ter, no máximo, 20 anos – e que posteriormente eu descobri que tinha 31 – falava a respeito da cultura e da sociedade, da pré-história e da modernidade, como se fosse uma antropóloga que varou as eras e os mares. Mesmo sem conhecer aquilo que eu conhecia e sem ter vivido aquilo que André Meyer presenciou pelos arredores do mundo, Christine tinha opiniões tão marcantes que arregalava-nos os olhos vê-la falar.
Com o discurso mais cativante que já vi, ela tinha o poder de enfeitiçar-nos e de convencer-nos. Falava como Mônica falou para Eduardo; como um político fala para uma nação; como uma mãe fala para um filho. Eu não resisti, ousei. E pequei:
— “E você, de onde é?”, falei.
Ela empertigou-se, engoliu seco e fugiu da resposta. Mais tarde eu descobriria que a obscuridade e a timidez eram recorrentes na sua personalidade. Não quis responder. Pelo contrário, mostrou-se irritadiça a partir daquele momento, arranjou uma desculpa e foi-se embora na mesma brevidade com que chegou.
A BUSCA
Fiquei inquieto com essa repentina partida. Voltei para meu escritório, trabalhei durante um dia, dois três... Ela tinha virado minha obsessão. Havia uma aura perturbada diante de mim e eu senti necessidade de estar próximo a ela. Não por piedade e pelo sentimento culposo de complacência. Eu queria observá-la. Queria saber aonde seu mundo acabava, porque era tão brilhante e ao mesmo tempo tão problemática.
As agruras daquela mulher eram visíveis. Suas unhas com o parco esmalte vermelho que os dentes roeram era um sinal disto. Seu cabelo tinha a cor preta e viva que lembrava tempos de outrora, mas não era preciso tatear os fios sebosos daquela cabeleira espessa para saber que ela não o penteava ou o lavava há dias. Suas roupas remetiam a um new age com um quê da cena punk-rock e hardcore dos subúrbios da Inglaterra. Ela era o tipo de gente que não passa despercebida por uma calçada movimentada. Seus óculos – que eram usados apenas quando as lentes de contato a irritavam – davam-lhe um ar etéreo de quem está constantemente viajando no efeito de um cigarro de cannabis. Somado a tudo isso o que espantava e prendia a atenção dos interlocutores de Christine, ou pelo menos deste interlocutor, era a sua extrema magreza, acentuada pelas calças de boca apertada e seu rosto branco, com grandes sulcos por onde suas veias saltavam.
E inquieto eu fui à caça de Christine. O ponto de partida foi um sábado na Rua Augusta, onde a movimentação era mais intensa que o sábado anterior que, sucessivamente, sempre superou aquele que o antecedia. Festa, música, sorrisos largos e eis a minha presa: Christine. Eu a persigo durante algumas horas. Anoto mentalmente as frases soltas que consigo perceber saindo de seu breve contato com alguns conhecidos, capitulo seus gestos e reparo no seu jeito de andar.
Vi seu rosto cadavérico iluminar-se com a perspectiva das pessoas que por mera casualidade vêm falar com ela. A noite começara num boteco sujo, com um copo de bebida barata que ia sequencialmente, em intervalos de dez segundos, ao rasgo horizontal que estava logo abaixo de seu nariz.
Ao se aproximar alguém – ela chegara sozinha – ela se assusta e se acalma em seguida, mas desta vez não espanta quem chegara até ela. Era uma garota. Eu me aproximei e as vi trocarem um afago sincero, seguido de um beijo na testa.
Aquele foi o beijo da que o mundo dera em Christine. Pois Christine, depois de seguidos abusos de um homem pelo qual ela se encantara e vivera amando num cubículo sujo da Praça Roosevelt, vivia sozinha ainda naquele mesmo quarto apertado em cima do Teatro dos Satyros I. Ela não tinha ninguém, seu consumo a consumia, as drogas eram seu livro de cabeceira, estandarte do desenfreio que sua vida tomou. Christine derrama então na garganta sua bebida e a engole. Respira fundo. Eu percebi que ela acabara de ter sido convocada por aquela garota do beijo. Ela fora praticar aquele seu número bizarro na casa mais infame do pedaço, onde ela seria amarrada por grossas cordas e suspensa ficaria durante uns minutos. Os malucos por sexo vibrariam na seqüência ao ver seu corp magérrimo semi-mortificado com a prática estranha.
Eu assisto seu show e converso com as pessoas que a conheciam vagamente. Descubro algumas coisas sobre a sua vida e decido procurá-la em seguida.
Duas horas após o show consigo um momento frente a frente com ela. Apresento-me inssossamnte e ela não se recorda de mim.
— “Ce tá bem?”, sussurro inseguro.
— “Tô”, ela responde.
Ela não fora nada receptiva. Não queria um idiota sóbrio pra ter pena dela. Eu então não consegui organizar os pensamentos e o inconsciente se sobrepôs num impulso:
— “E você tá feliz?”, replico estupidamente.
Ela não fala; olha fundamente nos meus olhos. Eu vejo que estão vermelhos. Ela me mostra os braços marcados de picadas, chama um daqueles caras que passavam apressados e o beija na boca com força, em demonstração de repudia à mim.
Em seguida mostra o dedo médio da mão direita e me manda à merda:
— Vai embora, cacete.
Victor de Moraes