sexta-feira, fevereiro 29

"Ele foi traído", disse o espelho

Seja dita em forma de escárnio, seja dita em sofreguidão, a fatídica maledicência corrobora a pior sensação do ser humano masculino. Não passa de uma frase e o espelho apontando nos olhos: "Ele foi traído".

Homens traídos já provocaram grandes catástrofes. Quem há de garantir que Adolf, Benito, Napoleão, Mao e Fidel não padeceram desta condição que solicita depressão? Ún hombre tiene su dignidad a empezar, hasta su muerte. Ser traído é, persupuesto, um privilégio para poucos. Porque os píncaros, os bajuladores e o tão desejado "respeito imposto" são alcançados quando se tem algo a recuperar.

E há mais de uma maneira de sentir a galha eqüina da galhofa quadrupédica. A traição vem à galope quando marca um coração à ferro quente, calcada na fuga da mulher amada e calçada com as ferraduras de um potro bravio. Por vezes, a pecaminosa vem premonitória, com a mão pesada dos búzios, dos santos e dos monges; encerrada pelo grito de miséricordia ("Pai, porque nos abandonaste!"), antecedendo por um segundo o Apocalipse.

Mas se queres uma traição dolorosa - você que é escritor e vive, pisa e cospe em cima da desgraça alheia - tens a dor da facada na espalda, aquela que sangra como sangra o petróleo que corre nas veias deste mundo (vasto mundo!) tão perfurado por embarcações e lucros. Esta dor é o sangrar da derrota, da humilhação e do sentimento de cumplicidade prostituída. É o chorar sem lágrimas pela mão que, se antes amparava, agora empura. É dar-se conta de que o tapinha nas costas virou uma mãozada na face enrusbecida. Pois não foi inventado algo comparado à traição de um amigo, daqueles com quem um dia, dividimos a marmita gelada.

Por fim (ma che! questas líneas maledettas!), nadie, solamente nadie, supera em amargor e pesar a fodida raiva que um filho um dia sentiu ao ser traído por sua mãe. Desculpem-me o Complexo de Édipo.

Victor de Moraes

segunda-feira, fevereiro 25

Força de palavra, palavra de força

Escrever é viver, de uma maneira mais livre de quaisquer convenções, e tradições, e ridículas invenções. É carimbar a existência, dar a mão à eternidade, é ficar à vontade.

A seguir, a colaboração de um amigo.

Raul Dias


Confusão

Perdido em pensamentos, perdido no tempo, e sem saber o motivo pelo qual me perdi. Idéias sem sentido amontoadas em um só pensamento que não sei distinguir, já fui ao futuro, já fui ao passado e refleti meu presente. Refletindo, me deparei a um muro que não sei se devo tentar atravessar, creio que esse muro se refere à permanência ou à mudança. Escolha!

Ainda um pouco perdido, reparei que esse muro tomou cor, uma cor vibrante, que me trouxe felicidade. Mas mesmo assim, a dúvida permanecia: atravessar o muro ou permanecer do lado de cá. "Acho que isso nem importa mais".

O muro de repente some, e um caminho se constrói, o meu caminho, a minha estrada, a minha vida, a minha confusão!





Derik Vieira

sexta-feira, fevereiro 22

Christine; Augusta

Uma vida sem regras que ninguém jamais conhecerá


Sexy, Christine (nome fictício) sai enrolada feito um pião; seus seios à mostra eram erguidos pelo trabalho minucioso de apertar as cordas sobre sua pele branca, macia e suave. Excitava a platéia ver seus mamilos arroxeados crisparem-se; a brancura de sua pele sendo substituída pela vermelhidão nos pontos em que a corda apertava a circulação de seu sangue, era sinônimo de tesão para aquelas pessoas que vibravam com a dor de Christine. Era uma apresentação de uma técnica que veio do oriente, onde sexo e mortificação corporal se misturavam. O nome que davam àquilo eu nem me lembro mais. Porque pasmei ao ver tamanha bizarrice, e enquanto todos adoravam aquela garota enrolada nas cordas, eu era aquela corda. Eu podia sentir cada espasmo dos músculos no seu rosto, podia sentir aonde doía mais e tinha um motivo para estar ali: eu queria aquela garota.

Foi num desses acasos que as esquinas proporcionam que eu a conheci. A rua Augusta, antro paulistano das esquisitices e das pessoas diferentes – sexual, racial e socialmente – é o único lugar onde você encontra de tudo. Lá tem clubbers que vomitam e dormem em cima do vômito; tem mendigo que ingere qualquer droga que você botar na frente dele; tem menina burguesa que vai de salto alto pra curtir uma das baladinhas cools que só existem por lá e depois elas trocam uns beijinhos com outras menininhas igualmente ignóbeis, degustam umas balas e acabam na cama do primeiro babaca que aparece; tem hippies imundos vendendo livros, missangas e camisetas e se pudessem até a mãe deles; tem góticos tenebrosos que fazem um happy hour e tomam tequila antes de bater ponto em algum cemitério pra cortar os pulsos; tem uma multidão de gays e lésbicas que exercem toda a sua homossexualidade sem pudores, porque é somente ali que ninguém nota que eles têm pudores; tem skinheads, mamelucos, sambistas, EMOs e a maior variedade de bares e drogas por metro quadrado de São Paulo. A Augusta era a casa da Christine.

Eu andava pela Augusta durante um dia qualquer, no momento em que seu ápice multicultural ainda não acontecia (era segunda-feira, 14h45min) e me interessei por uns desenhos tribais que compunham a fachada de uma loja. Depois de perceber que era uma clínica de perfuração corporal (piercing) entrei na loja por curiosidade. Era um indício de que eu queria ver algo diferente.

Não é que eu não seja íntimo da arte do body piercing. Até ostento os meus buracos pelo corpo. Três, no total. Mas sempre admirei de longe, sem saber que por trás daquele panorama estético havia uma estilização da vida. Eu nunca imaginei a profundidade deste mundo, onde a arte rupestre e indígena são inspirações e ponto de partida para as pessoas que perfuram os corpos ocidentais.

Por sorte eu me encontrava na loja do maior piercer do Brasil, André Meyer, um dos precursores desta moda por aqui, conhecedor de arte como poucos e obcecado pelos povos que tradicionalmente perfuram-se os corpos por motivos muito maiores do que parecer atraente. É claro que eu não saí de lá sem a minha jóia - um alargador de lóbulo com seis milímetros de espessura, desenhado exclusivamente por Meyer e que fora extraído do chifre de um búfalo – para depois voltar mais algumas vezes.

Mas apesar de todo o ambiente propício para eu saciar a minha ávida sagacidade por conhecer o mundo que André conhecia – ele viajara para Índia, Tailândia, Nepal; dá aulas de ioga e cursos profissionalizantes para novos piercers – me chamou a atenção naquele dia alguém que entrara na loja junto comigo. Era Christine. Ela, num raro momento de ausência de embriaguez, conversou durante uma longa hora com André e eu, revelando-se uma misteriosa criatura, marcada pelo signo de ser única neste planeta. A garota, que aparentava ter, no máximo, 20 anos – e que posteriormente eu descobri que tinha 31 – falava a respeito da cultura e da sociedade, da pré-história e da modernidade, como se fosse uma antropóloga que varou as eras e os mares. Mesmo sem conhecer aquilo que eu conhecia e sem ter vivido aquilo que André Meyer presenciou pelos arredores do mundo, Christine tinha opiniões tão marcantes que arregalava-nos os olhos vê-la falar.

Com o discurso mais cativante que já vi, ela tinha o poder de enfeitiçar-nos e de convencer-nos. Falava como Mônica falou para Eduardo; como um político fala para uma nação; como uma mãe fala para um filho. Eu não resisti, ousei. E pequei:

— “E você, de onde é?”, falei.

Ela empertigou-se, engoliu seco e fugiu da resposta. Mais tarde eu descobriria que a obscuridade e a timidez eram recorrentes na sua personalidade. Não quis responder. Pelo contrário, mostrou-se irritadiça a partir daquele momento, arranjou uma desculpa e foi-se embora na mesma brevidade com que chegou.

A BUSCA

Fiquei inquieto com essa repentina partida. Voltei para meu escritório, trabalhei durante um dia, dois três... Ela tinha virado minha obsessão. Havia uma aura perturbada diante de mim e eu senti necessidade de estar próximo a ela. Não por piedade e pelo sentimento culposo de complacência. Eu queria observá-la. Queria saber aonde seu mundo acabava, porque era tão brilhante e ao mesmo tempo tão problemática.

As agruras daquela mulher eram visíveis. Suas unhas com o parco esmalte vermelho que os dentes roeram era um sinal disto. Seu cabelo tinha a cor preta e viva que lembrava tempos de outrora, mas não era preciso tatear os fios sebosos daquela cabeleira espessa para saber que ela não o penteava ou o lavava há dias. Suas roupas remetiam a um new age com um quê da cena punk-rock e hardcore dos subúrbios da Inglaterra. Ela era o tipo de gente que não passa despercebida por uma calçada movimentada. Seus óculos – que eram usados apenas quando as lentes de contato a irritavam – davam-lhe um ar etéreo de quem está constantemente viajando no efeito de um cigarro de cannabis. Somado a tudo isso o que espantava e prendia a atenção dos interlocutores de Christine, ou pelo menos deste interlocutor, era a sua extrema magreza, acentuada pelas calças de boca apertada e seu rosto branco, com grandes sulcos por onde suas veias saltavam.

E inquieto eu fui à caça de Christine. O ponto de partida foi um sábado na Rua Augusta, onde a movimentação era mais intensa que o sábado anterior que, sucessivamente, sempre superou aquele que o antecedia. Festa, música, sorrisos largos e eis a minha presa: Christine. Eu a persigo durante algumas horas. Anoto mentalmente as frases soltas que consigo perceber saindo de seu breve contato com alguns conhecidos, capitulo seus gestos e reparo no seu jeito de andar.

Vi seu rosto cadavérico iluminar-se com a perspectiva das pessoas que por mera casualidade vêm falar com ela. A noite começara num boteco sujo, com um copo de bebida barata que ia sequencialmente, em intervalos de dez segundos, ao rasgo horizontal que estava logo abaixo de seu nariz.

Ao se aproximar alguém – ela chegara sozinha – ela se assusta e se acalma em seguida, mas desta vez não espanta quem chegara até ela. Era uma garota. Eu me aproximei e as vi trocarem um afago sincero, seguido de um beijo na testa.

Aquele foi o beijo da que o mundo dera em Christine. Pois Christine, depois de seguidos abusos de um homem pelo qual ela se encantara e vivera amando num cubículo sujo da Praça Roosevelt, vivia sozinha ainda naquele mesmo quarto apertado em cima do Teatro dos Satyros I. Ela não tinha ninguém, seu consumo a consumia, as drogas eram seu livro de cabeceira, estandarte do desenfreio que sua vida tomou. Christine derrama então na garganta sua bebida e a engole. Respira fundo. Eu percebi que ela acabara de ter sido convocada por aquela garota do beijo. Ela fora praticar aquele seu número bizarro na casa mais infame do pedaço, onde ela seria amarrada por grossas cordas e suspensa ficaria durante uns minutos. Os malucos por sexo vibrariam na seqüência ao ver seu corp magérrimo semi-mortificado com a prática estranha.

Eu assisto seu show e converso com as pessoas que a conheciam vagamente. Descubro algumas coisas sobre a sua vida e decido procurá-la em seguida.

Duas horas após o show consigo um momento frente a frente com ela. Apresento-me inssossamnte e ela não se recorda de mim.

— “Ce tá bem?”, sussurro inseguro.

— “Tô”, ela responde.

Ela não fora nada receptiva. Não queria um idiota sóbrio pra ter pena dela. Eu então não consegui organizar os pensamentos e o inconsciente se sobrepôs num impulso:

— “E você tá feliz?”, replico estupidamente.

Ela não fala; olha fundamente nos meus olhos. Eu vejo que estão vermelhos. Ela me mostra os braços marcados de picadas, chama um daqueles caras que passavam apressados e o beija na boca com força, em demonstração de repudia à mim.

Em seguida mostra o dedo médio da mão direita e me manda à merda:

— Vai embora, cacete.



Victor de Moraes

sexta-feira, fevereiro 15

"A tristeza é senhora...

...Desde que o samba é samba é assim. A lágrima sobre a pele escura. A noite e a chuva que cai lá fora."

Sabendo que não voltaria a repetir aquele gesto, abraçou seu homem com a força de um rompante cavaleiro medieval. Reprimindo o irremediável sem rumo que tornar-se-ia sua vida, segurou as lágrimas e alçou o queixo para manter firme o olhar que à esta altura mirava as costas do seu amado. Aquelas costas! Pinçadas com suas unhas nos momentos de galope, as costas daquele ser eram as únicas continuadas por braços que a agasalharam nos momentos mais oportunos de sua existência.

Ela sustentou as pernas diante da partida mais sofrida; a luz era uma penumbra e, mesmo sabendo que um abajur cor-de-rosa estava à sua esquerda, lembrou-se apenas da cor vaga que os candeeiros da rua principal dramatizavam. A luz era extremamente silenciosa. Era uma fagulha de sentimento que enchia de labaredas seu peito; impossível ter um som mais própício para o momento do que o plic-ploc da sua torneira mal-ajambrada na lavanderia. Não chorar naquela hora, foi uma vitória. Pois ela percebeu que as solas de sapato que não fariam trovoadas em seu carpete de madeira, de segunda à sexta-feira, por volta das 22:45h, não seriam mais seguidas do barulho do chuveiro para depois ser acompanhada do melhor beijo que um dia inteiro de saudade poderia proporcionar.

Pouco antes deste primeiro parágrafo, eles trocaram o olhar mais demorado, fitando seus próprios reflexos nas meninas-dos-olhos de cada um. Sem saber como, a despedida veio com a doçura inflexível de quem amou muito, mas já não ama mais. A única rudeza do momento foi a batida feroz provocada pela porta principal que largou-se ao bem querer dos ventos outonais do mês de abril.

E vê-lo pela última vez foi fatal. Quando de repente viu que ia chorar desesperadamente, correu para rua e não parou até que seus pés estivessem fartos do seu peso. Quando amanheceu, estava em casa de novo. Inexplicavelmente, Caetano Veloso cantava em seu rádio:

"... Solidão, apavora. Tudo demorando em ser tão ruim"

Victor de Moraes

segunda-feira, fevereiro 11

Que se picham os muros

Faz um tempo, houve a queda do "muro das lamentações", o de Berlim, o marco do fim do fantasma do socialismo no Leste Europeu. E hoje em dia vão caindo tantos outros, maiores ou menores, específicos. Os problemas sociais vêm crescendo ao passo que certos valores e idéias do sistema são desprezados. O incentivo ao uso da camisinha é um avanço contra o embargo da Igreja Católica, o que felizmente evita mais uma dúzia de problemas. O valor da família e suas relações hierárquicas também encontram alguns limites, pois muitas famílias não possuem pais para sustentá-las.

Em outra altitude, um probleminha que os brasileiros e outros sul-americanos vêm tendo com relação a indústria na China também pode, quem sabe um dia, explodir...

E eu vou ficar sonhando com um mundo nu de muros, ou só dos injustos.


Raul Dias

sexta-feira, fevereiro 8

Entre começo e fim, há meios

Quando o início se arma ante nós, temos medo. O início de uma carreira, o início de um namoro, o início de uma viagem ou até mesmo o início de uma noite; todos preenchem parcialmente um vazio que nunca estará preenchido de fato: o desconhecido. Sem saber o que há de surgir, nos deparamos com a incerteza, a companheira inerte de todo ser humano. Porque de certo e sem erro, existimos. No encalço desta existência, apenas duvidamos.

E a dúvida é do mundo e de nós. Começar algo é não ter provas irrefutáveis e nem ter consciência do mais justo. O ponto de partida opõe-se ao ponto final, sendo, entretanto, quase a mesma coisa que a interrogação. A um arroubo, desenfreio, ou simplesmente, um ponto de iniciação, dá-se o nome de “nada”. Pois nada era o mundo antes de ser mundo e nada éramos nós antes de sermos-nos. É como se fossemos a tinta branca no muro, pronta a receber pincéis, baldes e brocadas de tinta.

Sem perder o ritmo de metáforas – porque é delas que se alimentam as almas – dar o primeiro passo para uma empreitada é como colocar os pés descalços sobre o chão. É nesta hora então que o destino, obra dos deuses, deixa de agir. São os pés descalços que decidirão o rumo após o princípio. Mas somente o chão onde se pisa há de emoldurar os caminhos. Pés descalços pisam o chão quente, pobre e duro do sertão e das savanas. Os mesmos pés descalços pisam o cimento fresco das calçadas de Las Vegas. O mundo é uma casa de mil portas, sabemos onde a sola de nossos pés será bem-vinda.

Portanto, dar a saída é uma delícia. O primeiro toque na bola e a primeira mão sob o vestido de chita são incomparáveis. Nada substitui a sensação do experimento. E por isso não deixamos de buscar coisas novas. E assim, muitas vezes, experimentamos seguidamente as mesmas coisas sem que se perceba. Dali um tempo havemos de notar que o gosto mais saboroso ficou na primeira sensação.

Começar será sempre o ato mais gostoso. Quando estamos no início, rompemos barreiras, quebramos vidraças e somos novidade. A coragem nos permeia e gritamos ao mundo: “Tudo é possível!”. A hora triste, o momento de sofrer será o fim. O fim está a todo momento por perto.

Não tenhamos pressa, porque a gente sabe como começar, mas não sabe terminar.


Victor de Moraes